10.08.08
Sobre os ìndios Reriús
SOBRE OS ÍNDIOS RERIÚS
A historiografia brasileira é marcada por um grave silêncio a cerca dos povos autóctones. Desde muito cedo o colonizador português fez referência a estes como bárbaros e cruéis, chegando a descrevê-los como animais.
O fato de nossas sociedades autóctones não terem deixado nenhum relato escrito sobre seu contato com os europeus e sobre a violência destes sofrida, fez com que as elites produzissem uma idéia de que a colonização brasileira foi mais pacífica que a da América espanhola e que em certa altura da história os índios deixaram de existir ou porque foram dizimados em conflitos armados ou porque deram lugar a indivíduos oriundos da miscigenação(Leonardi, 1996).
Isto é observável no que diz respeito a índios denominados Areriú, citados como os primitivos habitantes da ribeira do Acaraú. A historiografia a cerca deles é pontual, imprecisa, como ocorre nos demais casos.
Os Areriús (também chamados de Reriús, Irariús, Irarijús, Arariús, Arearús e por outras mais corruptelas) fazem parte de uma família étnica que inclui em si dez tribos: os Tarairiús. Seu território, conforme Filho (1962), se estendia das extremidades das praias do Rio Grande do Norte até os sertões do Piauí e do Ceará, aonde chegavam a ocupar porções de terra dentro dos territórios dos Tremembé, dos Jês e dos Cariris.
Os Tarairiús praticavam nomadismo dentro de seu próprio território, movidos pelas necessidades do inverno ou da estiagem. Viviam da caça, da pesca, da coleta e do cultivo de alguns legumes. Faziam uso de vasos e outros utensílios de pedra. Podiam ser polígamos, eram endocanibalistas (praticavam canibalismo apenas com os de sua tribo como crianças que nasciam mortas, idosos, com o cacique e o pajé ao morrerem) e extremamente belicosos (FILHO, 1962, p.56 a 62).
Particularmente os Areriús habitavam as serras distantes oito léguas da Ibiapaba no sentido do nascente, e a bacia do rio Acaraú. Eram governados por quatro chefes e se diferenciavam dos demais Tarairiús por não serem polígamos e nem canibais. Um trecho da carta Ânua do padre Ascenso Gago, de 1695, nos afirma isto:
Já fiz aviso a vossa Reverência como tínhamos agregado à missão a nação tapuia reriú. Habita esta nação outra serra de penedia alta e fragosa, que dista da serra da Ibiapaba oito léguas, porém pequena em comparação dela, porque terá de comprimento seis léguas somente. É esta nação gente de corso. Há entre eles quatro principais pelos quais estão repartidos os vassalos, a saber: o Principal Timicu, o Principal Coió, o Principal Arapá e o Principal Guarará. Descem a fazer suas correrias pelos campos à caça e ao mel, e se tornam a recolher à sua serra. Não comem carne humana, bebem pouco, casam as filhas depois dos quinze anos de idade, costume geral dos Tapuias desta costa, não tem mais que uma mulher, à qual costumam repudiar alguma vez, principalmente se é preguiçosa. É nação belicosa e muito valente (LEITE, 1943, VOL.III).
No ano de 1675, portanto vinte anos antes, os índios Areriús sofreram fortíssima guerra na época de Bento Macedo, sendo muitos deles mortos e seus filhos e mulheres reduzidos ao cativeiro (ARAÚJO, 1979).
Ainda conforme Araújo (2000)estes índio foram aldeados em 1712 na serra da Meruoca, sob a direção do Padre José Teixeira de Miranda.
No livro O Município de Santana, estes índios aparecem, no contexto de uma rebelião, em 1713, “afligindo” os moradores da ribeira do Acaraú, “expulsando-os de suas fazendas” rumo à Ibiapaba. Embora o autor não cite a fonte da notícia, esta foi retirada de um artigo de Studart Filho: A Rebelião de 1713. Vejamos o que é dito a respeito destes índios no referido artigo:
Tomam armas contra os colonizadores os Acriús e os Tremembés que malgrado a situação de vassalos de S.M. não haviam perdido o ânimo belicoso e seus rancores contra os luso-brasileiros. Amotinaram-se igualmente os Areriús que assolaram os moradores da ribeira do Acaraú e correram seu missionário a tiros.
O desfecho deste conflito para os Areriús é assim descrito por Studart Filho:
Mais animadora, porém, a carta escrita pelo senado da Câmara daquela vila, ao Des. Cristóvão Soares Reimão, em 8 de fevereiro de 1714. Nela se assegura que, no conflito armado, ocorrido no ano anterior entre moradores e Areriús, estes haviam perdido muita gente e deles já poucos existiam.
A cidade de Reriutaba traz em seu nome o nome deste povo. A razão dos moradores desta cidade terem escolhido tal nome nos é desconhecida e no entanto parece desafiar o silêncio proposto pela citação acima, uma vez que essa denominação foi oficializada em 30 de dezembro de 1943. Reriutaba quer dizer: a Taba dos Reriús.
Assim, pelo exposto vê-se que muito há que ser feito para que se escreva uma nova história onde os nossos avós indígenas sejam retirados do silêncio.