Blog da Memória Santanense

Um espaço criado para todos os que querem compartilhar suas memórias e histórias orais sobre o povo santanense

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13.11.08

GURIÚ, LENDA, MITO OU REALIDADE?

Não é de hoje que aqueles que não alcançam a vitória em suas campanhas políticas em Santana são enviados a um lugar folclórico chamado Guriú (ou Buriú).
Nesta acirrada disputa política última pela prefeitura de Santana, frente a tantas provocações e picuinhas entre situação e oposição, me pus a perguntar quando, onde e porque teria surgido este costume de se mandar os que perdem politicamente ao Guriú. Além disso surgiu em mim a curiosidae de saber se tal lugar existiu ou existe.
Como todo bom e curioso internauta lancei o nome de meu anseio na mágica barra de pesquisas e, "zás", o tecnológico oráculo internáutico informou-me que existe uma praia em Jericoacoara chamada PRAIA DO GURIÚ, local mui visitado por turistas e onde um rio chamado Guriú desemboca e cavalos marinhos são preservados por lei.
Conversando com Santanenses, outras informações foram surgindo. Um aluno informou-me que uma fazenda onde morara com os pais quando menino tinha por nome Buriú. Era distante de tudo, de difícil acesso e era um criadouro de muriçocas. Meu afilhado disse-me e outro aluno confirmou, que existe um lugarejo entre Granja e Camocim por nome Guriú com as características que existem no imaginário de nosso povo a muito tempo: de solo ruim, com muita muriçoca (que chegam a ter o" tamanho de uma galinha") e de difícil acesso.
Lenda ou não o rio aparece citado neste trecho da antiga RESOLUÇÃO Nº 626 DE 22 DE DEZEMBRO DE 1853, que mudou os limites da Freguesia de Sant'Anna(Paróquia de Santana) e da Freguesia da Barra do Acaracú(Paróquia do Acaraú):
"Artigo 1º: A Freguesia da Barra do Acaracú fica d’ora em diante extremando com as freguesias limítrofes pela maneira seguinte: com a Granja pela Barra do rio Guriú até a fasenda – extrema – de Clemente Antonio inclusive com todo terreno Tucunduba de dentro; com a Freguesia de Sant’Anna, pelo lugar ----------- Marco – na ribeira do Acaracú por um e outro lado, exclusive o Nicho de S. Manuel; com a da Imperatriz pela margem occidental da ribeira do Aracaty – Assú, até a fasenda São Francisco no Aracaty – Meirim, ficando pertencendo à Freguesia de Santa’Anna o território restante pela margem do mesmo rio acima até a fasenda – Almas – inclusive. Revogadas as disposições em contrário."
Uma colega professora, informou-me que, quem começou este costume de mandar o povo ao Guriú, foi o senhor Zezé Tomás, sobrinho do padre Antônio Tomás, figura muito conhecida em Santana por seus trajes galantes e seu senso de humor peculiar.
Independente da existência ou não do local, mesmo que esta exista, o Guriú do povo Santanense é o local das lágrimas, para onde se manda os que perdem, aonde os que perdem desejam resguardar-se da pilhéria dos que ganham, é por fim o exílio, de onde se volta quando passa a tempestade.

22.08.08

UNISA doará livros ao Memorial

    Ontem, estivemos na sede da União dos universitários de Santana do Acaraú (UNISA) para escolher, dentre vários livros do acervo da Biblioteca que um dia lá funcionou, aqueles que mais tivessem a ver com a proposta do Memorial.
    Os mesmos nos serão entregues, conforme o presidente da associação, no sábado próximo, em assembléia que registrará, em sua ata, a doação.
    Dentre os preciosos títulos estão livros de José Alcídes Pinto que hoje em dia dificilmente encontramos e livros que trazem estudos de historiadores da zona norte sobre assuntos de nossa história regional, como um que trata da história das associações religiosas da zona norte.
    Queremos registrar aqui nossos agradecimentos à UNISA que tão bem soube compreender o intuito deste trabalho

18.08.08

Ajude-nos amontar a Biblioteca do Memorial

Com o fim de preservar a história e memória de Santana do acaraú o Memorial da Paróquia de Senhora Santana está com um projeto de reunir em uma biblioteca livros de filhos da terra ou que se relacionem a Santana, jornais que circularam na cidade ou recortes de jornais relativos a sua história, discursos de políticos e filhos ilustres da terra (em áudio ou vídeo ou mesmo transcritos), documentos antigos e outros mais registros que possam nos ajudar neste sentido.
Você pode nos ajudar divulgando esta campanha ou mesmo doando livros, discursos em áudio e vídeo, documentos antigos ou cópias destes.

PS: Somente terão acesso a documentos e aos discursos estudantes ou pesquisadores que previamente nos apresentarem seus projetos
Algumas pessoas já nos emprestaram livros para xerocópia, veja a capa deste:

Projeto Memória Política

Caros Amigos

    O Memorial da paróquia de Senhora Santana torna agora público o seu mais novo projeto: Memória Política Santanense.
    Através deste pretende-se reunir discursos dos políticos Santanenses em cds de dados e também transcritos, que ficarão à disposição de quem desejar realizar trabalhos de pesquisas que contemplem a análise destes discursos.
    Além deste material, pretendemos reunir outros materiais como santinhos, panfletos, cartas abertas, dentre outros.
    O acesso a tal conteúdo só será possível mediante a prévia apresentação do projeto de pesquisa a ser desenvolvido por quem quiser estudá-los.
    Por isso pedimos a colaboração dos santanenses que tiverem consigo discuros gravados em fita cassete, cd, comíssios ou outros eventos políticos gravados em vhs ou mesmo já em dvd que nos permitam fazer cópias de seus materiais.
    Estes depois de reunidos em nossa futura bilblioteca serão organizados  cronologicamente e vão colaborar para preservar nossa história.

10.08.08

Sobre os ìndios Reriús

SOBRE OS ÍNDIOS RERIÚS

A historiografia brasileira é marcada por um grave silêncio a cerca dos povos autóctones. Desde muito cedo o colonizador português fez referência a estes como bárbaros e cruéis, chegando a descrevê-los como animais.
O fato de nossas sociedades autóctones não terem deixado nenhum relato escrito sobre seu contato com os europeus e sobre a violência destes sofrida, fez com que as elites produzissem uma idéia de que a colonização brasileira foi mais pacífica que a da América espanhola e que em certa altura da história os índios deixaram de existir ou porque foram dizimados em conflitos armados ou porque deram lugar a indivíduos oriundos da miscigenação(Leonardi, 1996).
Isto é observável no que diz respeito a índios denominados Areriú, citados como os primitivos habitantes da ribeira do Acaraú. A historiografia a cerca deles é pontual, imprecisa, como ocorre nos demais casos.
Os Areriús (também chamados de Reriús, Irariús, Irarijús, Arariús, Arearús e por outras mais corruptelas) fazem parte de uma família étnica que inclui em si dez tribos: os Tarairiús. Seu território, conforme Filho (1962), se estendia das extremidades das praias do Rio Grande do Norte até os sertões do Piauí e do Ceará, aonde chegavam a ocupar porções de terra dentro dos territórios dos Tremembé, dos Jês e dos Cariris.
Os Tarairiús praticavam nomadismo dentro de seu próprio território, movidos pelas necessidades do inverno ou da estiagem. Viviam da caça, da pesca, da coleta e do cultivo de alguns legumes. Faziam uso de vasos e outros utensílios de pedra. Podiam ser polígamos, eram endocanibalistas (praticavam canibalismo apenas com os de sua tribo como crianças que nasciam mortas, idosos, com o cacique e o pajé ao morrerem) e extremamente belicosos (FILHO, 1962, p.56 a 62).
Particularmente os Areriús habitavam as serras distantes oito léguas da Ibiapaba no sentido do nascente, e a bacia do rio Acaraú. Eram governados por quatro chefes e se diferenciavam dos demais Tarairiús por não serem polígamos e nem canibais. Um trecho da carta Ânua do padre Ascenso Gago, de 1695, nos afirma isto:
Já fiz aviso a vossa Reverência como tínhamos agregado à missão a nação tapuia reriú. Habita esta nação outra serra de penedia alta e fragosa, que dista da serra da Ibiapaba oito léguas, porém pequena em comparação dela, porque terá de comprimento seis léguas somente. É esta nação gente de corso. Há entre eles quatro principais pelos quais estão repartidos os vassalos, a saber: o Principal Timicu, o Principal Coió, o Principal Arapá e o Principal Guarará. Descem a fazer suas correrias pelos campos à caça e ao mel, e se tornam a recolher à sua serra. Não comem carne humana, bebem pouco, casam as filhas depois dos quinze anos de idade, costume geral dos Tapuias desta costa, não tem mais que uma mulher, à qual costumam repudiar alguma vez, principalmente se é preguiçosa. É nação belicosa e muito valente (LEITE, 1943, VOL.III).
No ano de 1675, portanto vinte anos antes, os índios Areriús sofreram fortíssima guerra na época de Bento Macedo, sendo muitos deles mortos e seus filhos e mulheres reduzidos ao cativeiro (ARAÚJO, 1979).
Ainda conforme Araújo (2000)estes índio foram aldeados em 1712 na serra da Meruoca, sob a direção do Padre José Teixeira de Miranda.
No livro O Município de Santana, estes índios aparecem, no contexto de uma rebelião, em 1713, “afligindo” os moradores da ribeira do Acaraú, “expulsando-os de suas fazendas” rumo à Ibiapaba. Embora o autor não cite a fonte da notícia, esta foi retirada de um artigo de Studart Filho: A Rebelião de 1713. Vejamos o que é dito a respeito destes índios no referido artigo:
Tomam armas contra os colonizadores os Acriús e os Tremembés que malgrado a situação de vassalos de S.M. não haviam perdido o ânimo belicoso e seus rancores contra os luso-brasileiros. Amotinaram-se igualmente os Areriús que assolaram os moradores da ribeira do Acaraú e correram seu missionário a tiros.
O desfecho deste conflito para os Areriús é assim descrito por Studart Filho:
Mais animadora, porém, a carta escrita pelo senado da Câmara daquela vila, ao Des. Cristóvão Soares Reimão, em 8 de fevereiro de 1714. Nela se assegura que, no conflito armado, ocorrido no ano anterior entre moradores e Areriús, estes haviam perdido muita gente e deles já poucos existiam.
A cidade de Reriutaba traz em seu nome o nome deste povo. A razão dos moradores desta cidade terem escolhido tal nome nos é desconhecida e no entanto parece desafiar o silêncio proposto pela citação acima, uma vez que essa denominação foi oficializada em 30 de dezembro de 1943. Reriutaba quer dizer: a Taba dos Reriús.
Assim, pelo exposto vê-se que muito há que ser feito para que se escreva uma nova história onde os nossos avós indígenas sejam retirados do silêncio.